Vida Caiçara

A vida caiçara é dura, mas….

Observando os barquinhos de pesca ancorados nas baias, me recordava das estórias dos pescadores…

” Das longas jornadas em alto mar quando até os mais experientes são assolados pelo enjoo. O perigo das grandes ondas que lavam a alma. Onde se manter a bordo é uma luta pela sobrevivência. Vida de pescador é difícil. A pesca artesanal está acabando devido a competição com os pescadores predatórios. Hoje em dia, sem tanto peixe, alguns vão longe para dentro do mar aberto. Outros vão embora para a cidade, na esperança de um trabalho melhor que não existe. Alguns se organizam em associações para se fortalecerem. Existe esperança no ecoturismo sustentável para complementar a renda que não vem mais da pesca abundante. Eles resistem em suas terras e parecem felizes.”

Esta travessia do saco do Mamanguá, enseada da Cajaíba e ponta da Joatinga, entre Parati Mirim e praia das Laranjeiras, litoral sul do Rio de Janeiro, é um trekking singular no desafio da travessia e repleto de belas paisagens litorâneas. A travessia pode ser realizada em ambos os sentidos. Para facilitar o deslocamento, o trekking foi realizado fora da alta temporada e da estação de verão.

As trilhas bordejam encostas, em subidas e descidas pela mata atlântica, até o encontro com enseadas e praias paradisíacas. No período da tarde devido ao sol ardente e alta umidade, as paradas eram frequentes. Com isso mergulhávamos na observação respeitosa do modo de vida simples das comunidades que habitam essa região costeira. O entardecer era louvável na expectativa de cumprir o percurso, achar um acampamento para pernoite e poder contemplar mais um pôr do sol.

A vida caiçara é feliz!

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Final de Tarde no Caparaó

A travessia dentro do Parque Nacional do Caparaó foi um desafio singular por diversos motivos.

A gente acha que nunca mais vai assistir um pôr do sol tão belo e magnifico devido a tantos outros que já vimos.

Puro engano, pois a cada novo pôr do sol, seja ele em qualquer lugar que seja, a emoção carrega o coração de alegria e ficamos meio que perdidos naqueles últimos instantes de luz.

Então aquele entardecer no Caparaó estava carregado de nuvens densas que se movimentavam freneticamente, desenhando coisas que foram além da nossa imaginação.

Que belíssimo final de tarde após mais uma longa jornada de trekking!

Presente da Bocaina

Naquele ultimo dia nos despedimos da Bocaina e descemos a serra do mar em direção a Mambucaba.

Ao raiar do sol tomamos café com o Tião e saímos ligeiro para atravessar os últimos barreiros que estavam bem encharcados devido à chuvarada que caiu a noite toda.

Antes de começar a descida da serra, para nossa alegria, um quadro emoldurado pela mãe natureza se desenhou passo a passo em muitos fotogramas naquele pequeno trecho.

Maravilha de cachoeira que se encaixou perfeitamente na moldura de raízes e cipós trazendo à tona toda sua imponência…

… E demos graças mais vez!

Arvore Solitária

Ao caminhar na Serra da Canastra os olhos atentos vasculharam aqueles campos de cerrado numa vastidão sem fim. Além da ventania que trouxe frescor ao caminhar debaixo daquele sol escaldante, anunciou algumas arvores solitárias.

Com alegria no espirito e leveza no corpo, o caminhar passou despercebido naquele primeiro dia de travessia. Entre amigos as conversas foram jogadas ao vento com as arvores a perscrutar nossos passos.

Arvores solitárias. Sua imponência não estava no tamanho, e sim na sua pureza. Castigada pelo sol e vento, trazia um silencio interior de absoluta paz. Dava esperança carregada em flores.

Naquela longa jornada, apos muito caminhar, a perseverança das arvores solitárias se fizeram solidárias durante o trajeto.

Ser Água

Um arroio brota na mata e desce em correntes que se avolumam. No percurso, encontra outros regatos que se unem pela sua natureza. Quando se vê, já são conhecidos como riachos e rios.

Estes nascedouros se multiplicam graças a mata densa e maciços rochosos que se elevam do interior em direção ao mar. Por conta disso, suas águas despencam em quedas abruptas formando cachoeiras.

Um banho nas águas destas serras é como um elixir. O corpo todo vai ser ativado, da circulação a respiração. Vai expulsar aqueles “roedores” que povoam a mente e dar aquela sacudida no espírito.

Entre um caminhar e outro, estive absorto ao passar horas espreitando estas águas da Bocaina.

Nas águas turbulentas, as corredeiras passam tão rápidas que nem percebemos o tempo; E aos desatentos, vão se enroscando pelo caminho.

Nas águas mansas, os remansos parecem água paradas que escondem o tempo e guardam a pureza das águas claras que limpam mentes nubladas.

Enfim, ser água é ser ilimitado, não temer as quedas, estar atento aos obstáculos, fluir para não estagnar e buscar a calmaria nos momentos turbulentos.

E pensar que estas águas são apenas a infinitésima parte de um todo que chamamos oceano.

Mar de Nuvens 

Subi a serra para mais uma travessia, e me perdi no tempo ao apreciar aquele mar de nuvens.

Como toda caminhada, por mais que seja pela enésima vez, tudo é novo e diferente…

A estrada quase pavimentada deixou apenas lembranças daquele tempo de muita lama, barro e solavancos para chegar ao início da trilha.

Os amigos, como sempre, presentes e companheiros para mais uma jornada nas terras altas da Bocaina.

No caminho encontramos vários grupos e andarilhos, hora compartilhando informações, hora trocando ideias ou apenas desejando um ótimo “ bom dia! ”

E a natureza? Bela, completa e preservada. Mostrando que a cada estação do ano tem algo novo a revelar, seja nas cores, nas flores, nas águas ou nas nuvens!

Diferente mesmo, era eu! Naquele segundo que ficou atrás, já não era mais o mesmo. A cada passo, a cada escolha, a cada pensamento, sem perceber já havia me tornado uma outra pessoa.

Um lugar onde a simplicidade e o estado natural das coisas, de uma riqueza imensa, me faz tão próximo de eu mesmo que as vezes me assusta.

Acredito que a experiência nos dá a chance de poder inovar, mas é a vivência que nos molda a cada instante.

As melhores coisas da vida são sentidas pelo coração, não adianta apenas olhar ou tocar.

Com alegria segui caminhando nas nuvens, para tentar ver além do horizonte.