Dia de Outono

Está fazendo um dia lindo de outono. A praia estava cheia de um vento bom, de uma liberdade. E eu estava só. E naqueles momentos não precisava de ninguém. Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto. O mar estava calmo. Eu também. Mas à espreita, em suspeita. Como se essa calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto me fascina.

Clarice Lispector

A Grande Mãe

A grande mãe se debruçou….

Há séculos em ascensão aos céus, símbolo magno da vida, por vez sequiosa por águas turbulentas, se aproximou do abismo das margens úmidas.

A grande árvore se ramificou em galhos fortes na busca do sol vivo. Apesar da superioridade alcançada, se viu pendida sobre o rio Grande. Agora penetra as rochas e foge das corredeiras. Ela bebe das águas suculentas do conhecimento proibido. Ainda perene, segue corpulenta.

Agora em tempos de tempestades tardias, da primavera derradeira, as águas turbulentas buscam novos caminhos para transpor a grande mãe. Os espíritos da floresta espreitam felizes a brincadeira das águas.

Então fui descansar em seus braços, debaixo do tronco maior, ao lado das corredeiras mansas. Apenas fluido, fluindo nas corredeiras, feliz… A grande mãe me acolheu em seus braços.

A grande mãe, pura regeneração. Sem medo, ainda se avolumando com ímpeto, galhos vertendo verticalmente, incontáveis folhas morrendo e renascendo a todo instante, cíclico, fértil. Grande árvore da fonte da vida.

De raízes imensas, embrenhadas nas profundezas escuras do subterrâneo da terra. Aquele tronco descomunal, vertido na superfície, os galhos buscam forças para alcançar novamente a luz do céu. Até quando a grande mãe vai resistir à tentação das águas descomunais que chegam na próxima estação?

Logo, do tronco ceifado e inerte da grande mãe, a vida regenera num minúsculo broto verde. A morte e vida se estorvam…. É o ciclo que se renova!

Cadê o Caminho?

Sabe quando você já caminhou muito, muito mesmo. Está cansado. Por isso, uma paradinha para um gole d’água. Assim você olha pra cima e vê aquela gigantesca montanha. Parece que não tem como subir até lá, no topo.

Cadê o caminho? Está logo ali, atrás daquele arbusto, entre as pedras. Não se engane, depois muitas escalaminhadas e uso de cordas nas partes íngremes. Difícil até o último passo rumo ao cume.

Que alívio. Mais um desafio superado ao lado da alegria momentânea, humildade sempre e paciência com mais frequência que o desejado. Logo atrás vem a determinação. Parada obrigatória para o momento de contemplação e gratidão.

As vezes me desvio do caminho, mas logo volto. As vezes perdido e indeciso, penso que está logo ali, a trilha, o caminho, a resposta, a verdade, o momento presente. Respiro, sorrio, é lá vem ela, silenciosa resposta. Logo, de volta no caminho, sigo em frente (na vida).

Ar Puro

Ar fluido

Acordei revitalizado após longa e extenuante caminhada. No topo da montanha, saí da barraca para apreciar aquele sol animado. Me espreguicei em cada músculo. Dei alguns passos. Ainda meio cambeta, fiz o corpo pegar no tranco.

Ar ativo

Pensei, pare de viajar tanto. Respirei fundo, lento e ritmado. Instantaneamente tudo ficou mais claro. Estava rindo como criança. Raciocínio, reflexo e memória refinados.

Ar renovado

A paisagem era de cinema, cintilante. Um grande sol sobre as nuvens, completamente acima das montanhas. Havia um calor aconchegante e ar fresco.

Ar manifesto

Os raios do sol matinal cortavam a minha pele. Me sustentei com vitamina D. Tudo parecia descomplicado. A mente estava arejada.

Ar da vida

Tentei não pensar em nada. Meu espirito saudou a natureza. De olhar fixo no horizonte veio o sentimento de gratidão. Estava contente por apenas respirar.

Ar puro

A liberdade justa é como respirar o ar puro. A depressão e irritabilidade perecem sem deixar rastros. Santo remédio esse ar puro.

Terra Firme

” O sol abraçou o amanhecer e fui remar naquele oceano imenso. Navegava em água mansa de céu azul-fino. Tentava fitar as últimas estrelas da manhã. Remava na medida do meu tempo e pensamentos.

O mar inundou as margens. O mangue desvaneceu. 

Percebi que navegava em direção a grande montanha. Estava sendo engolido pela mata. As ilhotas ficaram na retaguarda e as margens cada vez mais estreitas. A natureza trasbordava e gritava com seus encantos em todos os cantos. 

Navegava em oceano antigo. 

Cansado de remar percebi como a montanha se agigantou. Fiquei aos seus pés. Contemplei sua grandeza em silêncio. Sem precisar do tempo entendi que era hora de retornar.

Naquele momento um boto emergiu do nada.

Após o susto, foi divertido ele nadar ao lado. Então notei a montanha tão distante. Onde foi parar aquela grandeza? Por um instante fiquei pensativo, à deriva. 

Exausto, reuni forças para terminar o percurso e voltar a terra firme. “

Pássaros da Imaginação

Próximo ao cais de Paraty Mirim, iniciamos a trilha atravessando o morro para caminhar na margem direita do Saco do Mamanguá. Fizemos curtas paradas nas praias das Pacas, Grande, Bica, Pontal, até chegar na praia da Curupira, após quatro horas de caminhada.

Além da beleza singular da praia da Curupira, nos chamou atenção a escolinha, com belas pinturas nas paredes e no chão, de animais e pássaros da mata, colocando o aprendizado no visual do dia a dia das crianças. Havia também placas com frases valorizando a natureza, a família, o caiçara; E suas coisas como a “canoa caiçara”.

Uma pena não poder conversar com a professora e alunos, pois a escolinha estava fechada devido as férias escolares.

Muita criatividade e cores nos desenhos. Até desenharam e pintaram pássaros da imaginação.

Caminhando na Areia

Com pegadas na areia deixamos…. Nossos pensamentos ao vento. Na travessia de barco até o Aventureiro a mente ainda surfou nas ondas de pensamentos daninhos, mas na caminhada do dia seguinte as preocupações ficaram ausentes. A ansiedade, comum no dia a dia da cidade, sumiram a beira-mar. Agora sim, realmente conectado ao meio. Após almoço em Dois Rios, subimos a trilha-estrada em direção a vila de Abraão. Debaixo de chuva torrencial, aceleramos os passos sem fraquejar sob as águas escorrendo na estrada. Chegamos encharcados, cansados e felizes no vilarejo de Abraão. Uma travessia que lavou o corpo e alma!

 

 

Ciclo da Natureza

ESCURO – A noite chegou sob total escuridão. Então calmamente esperamos pela luz da lua. Ela clareou toda a orla. Um evento tão comum, e ficamos mais uma vez surpreendidos pelo luar. Perfeita sintonia entre claro-escuro.

SOMBRA – Bem antes da noite virar dia, no horizonte um faixo luminoso despontava atrás do monte. Mais uma vez o sol tomara o lugar da lua. Por um momento, lua e sol compartilharam do mesmo céu.

CLARO – Amanheceu! Humildemente agradecido pelos primeiros raios de sol. Manhã de pura juventude. Aquecido e renovado. Conexão feita. Energia fluindo. Um novo ciclo se renovou. Aurora radiante diante de olhares incrédulos.

AURORA – Saímos para fora para apreciar aquele instante. Rapidamente aquecidos.  Dia iluminado, iluminando o caminho. Agradecido de corpo e alma. Alegria e brilho interior. Com o sol na Terra, fez se a luz!

OCASO – Chegou o entardecer. Mais um ciclo se completou. Acontece todo dia mas quase não percebemos. Um espetáculo da natureza. Admirável e maravilhosa dualidade da vida.