Estrada Sem Fim

Na busca de novos desafios em montanha e trekking, não temos escolhas, é preciso seguir por estradas…

Que muitas vezes parecem não ter fim!

Nestas estradas temos a companhia de dois companheiros anônimos: o inexplorado e o ignorado.

O inexplorado nos deixa curioso, faz a imaginação ir longe. Quase sempre o que vemos ao longe parece impossível de ser atingido e superado. 

O ignorado é seguir adiante mesmo sabendo dos riscos associados. Muitas vezes não temos toda a experiência necessária ou relegamos a questão.

O espírito planejador e desbravador deve falar mais alto.

O importante é seguir adiante, estar alerta e saber o momento de estacionar, desviar, ou até mesmo, desistir. A humildade deve ser a companheira #1.

Por isso seja no asfalto, terra, cascalho, lama ou curso d’água, as estradas são apenas a entrada do prato principal.

No final da viagem, a estrada parece interminável, sem fim… O jeito é relaxar e aproveitar a paisagem!

Ser Água

Um arroio brota na mata e desce em correntes que se avolumam. No percurso, encontra outros regatos que se unem pela sua natureza. Quando se vê, já são conhecidos como riachos e rios.

Estes nascedouros se multiplicam graças a mata densa e maciços rochosos que se elevam do interior em direção ao mar. Por conta disso, suas águas despencam em quedas abruptas formando cachoeiras.

Um banho nas águas destas serras é como um elixir. O corpo todo vai ser ativado, da circulação a respiração. Vai expulsar aqueles “roedores” que povoam a mente e dar aquela sacudida no espírito.

Entre um caminhar e outro, estive absorto ao passar horas espreitando estas águas da Bocaina.

Nas águas turbulentas, as corredeiras passam tão rápidas que nem percebemos o tempo; E aos desatentos, vão se enroscando pelo caminho.

Nas águas mansas, os remansos parecem água paradas que escondem o tempo e guardam a pureza das águas claras que limpam mentes nubladas.

Enfim, ser água é ser ilimitado, não temer as quedas, estar atento aos obstáculos, fluir para não estagnar e buscar a calmaria nos momentos turbulentos.

E pensar que estas águas são apenas a infinitésima parte de um todo que chamamos oceano.

Mar de Nuvens 

Subi a serra para mais uma travessia, e me perdi no tempo ao apreciar aquele mar de nuvens.

Como toda caminhada, por mais que seja pela enésima vez, tudo é novo e diferente…

A estrada quase pavimentada deixou apenas lembranças daquele tempo de muita lama, barro e solavancos para chegar ao início da trilha.

Os amigos, como sempre, presentes e companheiros para mais uma jornada nas terras altas da Bocaina.

No caminho encontramos vários grupos e andarilhos, hora compartilhando informações, hora trocando ideias ou apenas desejando um ótimo “ bom dia! ”

E a natureza? Bela, completa e preservada. Mostrando que a cada estação do ano tem algo novo a revelar, seja nas cores, nas flores, nas águas ou nas nuvens!

Diferente mesmo, era eu! Naquele segundo que ficou atrás, já não era mais o mesmo. A cada passo, a cada escolha, a cada pensamento, sem perceber já havia me tornado uma outra pessoa.

Um lugar onde a simplicidade e o estado natural das coisas, de uma riqueza imensa, me faz tão próximo de eu mesmo que as vezes me assusta.

Acredito que a experiência nos dá a chance de poder inovar, mas é a vivência que nos molda a cada instante.

As melhores coisas da vida são sentidas pelo coração, não adianta apenas olhar ou tocar.

Com alegria segui caminhando nas nuvens, para tentar ver além do horizonte.

No Topo da Ilha

Começamos o ano em grande estilo subindo o ponto culminante da Ilhabela, o Pico de São Sebastião, em caminhada de um dia.

Logo ao amanhecer saímos do Camping Palmar em direção ao sul da ilha. Após praia do Portinho e antes da praia da Feiticeira, saímos da estrada no portal de pedra em direção ao Chalé Recanto dos Pássaros e Cachoeira dos Três Tombos.

A caminhada tem aclives constantes a partir da cota 100 até o cume. Com trilha em mata fechada, úmida e quente, o terreno é bem acidentado e liso. Tivemos que rastejar por debaixo de bambuzais, desviar de espinhos e arvores caídas.

Como sempre, existe o perigo de animais peçonhentos e atenção redobrada nas pequenas bifurcações e trilhas de caçadores. A água é restrita mas pode ser encontrada na região do cume.

A caminhada iniciou no final da rua da caixa d’água, em estrada tomada pelo mato que em seguida segue em trilha margeando o lado esquerdo do rio.

Após meia hora de trilha passamos por uma pedra que parece um leme de navio, indicativo que estávamos na trilha certa. O caminho acessa trechos fechados de mato e tuneis de bambu onde o uso do facão foi essencial.

A cerca da cota 1.000 chegamos na Toca da Baliza, abrigo natural, excelente para pernoite ou emergência. Desse ponto entramos nos trechos mais íngremes com bambuzais em desnível. Ao chegar na pedra, contornamos pela direita até chegar em um pequeno descampado e mais adiante atingimos o cume a 1.380 m de altitude.

O vento sul trouxe nebulosidade. No cume a paisagem é incrível. Em meio ao movimento constante das nuvens avistamos no continente o município de São Sebastião e Serra do Mar.

Na ilha, mais ao sul vimos a praia do Bonete, Ponta do Boi e parte do Saco do Sombrio. Do lado do canal, pudemos avistar a vila da ilha e o Pico do Baepi.  

Totalizamos 9 horas entre ida, cume e retorno.

Excelente trilha!

Energias da Serra

Como toda longa jornada, ao final da missão cumprida o cansaço espreita os limites da resistência. Hora de recolhimento para recompor as forças e o equilíbrio.

Então subi em direção a um refúgio distante 5 km do centro de Campos de Jordão. Bem no meio da serra, onde todas as criaturas vivas, dos animais aos pássaros, da floresta aos riachos, estão conectadas.

A compensação é caminhar ou correr. Numa delas, passei em frente a Gruta dos Crioulos e subi o Pico do Imbiri.

Na descida confundi os caminhos até chegar a estrada do Campista para poder retornar ao refúgio.

Protegido pelo refúgio, amparado no conforto da família e amigos, chegara um novo entardecer de tranquilidade e silencio.

Com a energia renovada tudo ressalta os sentidos.

Toda manhã, na copa das árvores, lá estavam o Canário-da-Terra, o Asa-Branca e o Jacu perambulando de galho em galho.

Enquanto que empoleirado nas araucárias, as Maritacas e casais de Tucano-de-Bico-Verde faziam suas algazarras.

Na mata distante ouvi macacos e o Caxinguelê passou ligeiro, subindo e descendo árvores, em busca de alimento.

Que sensação boa estar renovado pelas energias da serra!

Retrospectiva – Categoria Trekking

Esta categoria Trekking tem significado mais amplo, naquilo que posso chamar de caminhadas de curta, média e longa duração, fácil ou difícil, incluindo também as montanhas.

Na essência, os relatos transitam entre duas vertentes, a técnica e a poética. De um lado, o cuidado em escrever o que é relevante, evitando relatos extensos. Do outro lado, o desafio de externar em forma de palavras os sentidos, sentimentos, vivências, boas ou ruins, e que possam trazer algum significado.

E quanto as imagens? São poucas publicadas por post, para também não poluir a postagem. Sem pretensões, tentando ser criativo e fazendo o básico da fotografia. Apenas ‘clics’ no modo automático.

Mas posso dizer com toda certeza que a jornada tem sido auspiciosa!

Enfim, todos os lugares são especiais quando se trata da natureza; E considerando apenas os posts publicados nesta categoria, os destaques são:

Felizmente, ainda há muito que ser relatado!

Forte Abraço!!!

Kleber Luz

Caminhar na Serra das Confusões

“ Quem procura aventura, encontra sacrifício.

Ambos precisam da medida certa da coragem. ”

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Caminhar na Serra das Confusões

É antes de tudo trilhar por terras primitivas da pré-história brasileira. É esconder do sol impiedoso e buscar as nuvens que chegam trazendo chuva, alagando o solo mirrado onde os cactos florescem e arbustos espinhentos se tornam novamente verdes. E assim o Marmeleiro resistente a seca usa suas raízes para buscar água nos caldeirões. O Umbuzeiro, uma dádiva do sertão, têm fruto que alimenta, copa larga que carrega sombra e aconchego; E raiz que armazena água. No outro extremo a vida selvagem fervilha na caatinga. Do alto, o Carcará espreita os Andorinhões que aos milhares voam em tropa, dando rasantes, para ao entardecer, entrar na toca. Na terra, o Soin sobe nos arbustos e o Macaco-prego curioso como é, desce a copa da árvore para nos ver. Nos costões rochosos o Mocó posa para foto. Enquanto que a Cutia, o tatu Peba e o Veado catingueiro param tranquilamente para beber água no poção da chuva. E os felinos onde estão? Ao anoitecer, as onças furtivamente saem para espreitar a caça.

Morro Calvo

“Os tupinambás vendo aquela porção de terra elevada, com uma das faces desprovida de mata, deram o nome de baepi, do tupi-guarani, morro calvo”.

Ir para as montanhas de Ilhabela é sempre um desafio, sendo a ilha mais montanhosa da costa brasileira com extensão de 337 km2. Soma-se a isto um clima úmido com temperaturas e chuvas elevadas em boa parte do ano, em meio a uma mata atlântica preservada pelo Parque Estadual de Ilhabela.

Suas montanhas somam sete pontos culminantes com altitudes que variam de 1.048 a 1.375 metros, respectivamente Pico do Baepi e Pico de São Sebastião.

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A surpresa do Pico do Baepi é sua localização privilegiada. O pico pode ser avistado facilmente do lado do continente, durante a travessia da balsa e dentro da ilha. A identificação está no paredão rochoso com mais de 150 metros, a única entre as montanhas do lado do canal.

A trilha está a sudoeste do pico e bem sinalizada pelo parque. O percurso é todo de subida na ida e descida na volta, numa extensão de 7,5 km a partir da cota 200 m até o cume a 1.048 m de altitude, em 5 horas de caminhada.

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“O caminho numa encosta de sapezal até chegar num platô onde existe um mirante voltado para o canal de São Sebastião. Aqui já valeu o esforço inicial. Seguimos na trilha sentido leste, por meio quilometro, descendo e subindo uma suave depressão em direção a mata.”

Dentro da mata a subida começa a ficar mais inclinada. Após passar um pequeno bambuzal a subida ficará mais íngreme com pontos de parada para descanso. O aclive vai aumentando e consequentemente a dificuldade também. Outros bambuzais, agora mais extenso e difícil de serem ultrapassados. As placas indicativas sinalizam a proximidade do pico.

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No cume, avista-se o canal de São Sebastião repleto de pequenas embarcações e imensos petroleiros e cargueiros. Aos pés do pico, o centro urbano da ilha com vista para um litoral de águas abrigadas por pequenas enseadas. Do outro lado do canal, a cidade de São Sebastião e ao fundo a Serra do Mar.

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“Nas direções leste, avistamos somente montanhas tomadas por uma densa mata atlântica, sem nenhuma visão do lado oceânico da ilha e suas praias selvagens.”

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“Finalmente, ao sul avistei o ponto mais alto da ilha, o Pico de São Sebastião, mas vamos deixar essa aventura para um próximo post.”

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Trilha do Bonete

“Pode-se ir de barco, mas o bom mesmo é curtir a trilha parando nas cachoeiras e no final descobrir uma praia quase deserta e ainda prosear com caiçaras no Canto do Nema.”

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O trekking é considerado nível alto devido os constantes desníveis ao longo dos 12 km de trilha em terreno acidentado.

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Deixamos o carro no estacionamento do Zé da Sepituba. De mochila cargueira partimos da Ponta da Sepituba, sul de Ilhabela, em direção à praia do Bonete. Dia perfeito para caminhar, de temperatura amena e quase sempre na sombra das árvores.

Após 2,5 km de caminhada chegamos na cachoeira da Lage. Aqui paramos no poço onde forma um tobogã natural. Como sempre fomos atacados por borrachudos, então o jeito foi ficar o maior tempo possível dentro d’água.

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“A trilha larga deixou o registro da tentativa de se fazer uma estrada até a vila do Bonete. Em 1977 foi regulamentado como área de parque estadual, garantindo assim a preservação.”

A próxima parada foi na cachoeira do Areado após 4 km de trilha e depois mais 3,5 km para chegar na cachoeira do Saquinho. Agora está fácil e mais seguro a transposição desses cursos d’água com as Passarelas Pênsil construídas nesses últimos anos.

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A beleza da mata atlântica e suas águas cristalinas ao longo da trilha são contagiantes e têm seu ápice na chegada ao Mirante do Bonete. Desse ponto podemos entender porque é considerada praia de surfista.

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Na praia, do lado direito é conhecido como Canto Bravo e no outro extremo o rio Nema, local onde abriga o rancho de canoas, conhecido como Canto do Nema. Na encosta acima vemos o Mirante da Barra e das Enchovas. Ao fundo a Ponta do Boi.

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Desta vez fomos surpreendidos por uma ressaca do mar que formava grandes ondas disformes e que nenhum surfista quis encarar naquele dia. Depois descobrimos que seria noite de lua cheia.

“Na sombra das Amendoeiras espreitamos a praia iluminada. A noite se desfez na grande lua cheia!”

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Lugar rustico que abriga uma tradicional comunidade caiçara que vive da pesca e turismo, onde a simplicidade e tranquilidade são o cartão de visita.

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Distante dos tempos quando foi inicialmente habitado pelo sesmeiro Antônio Bonete em 1608, nos dias atuais ainda resiste a loucura da urbanidade desregulada.

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“Sem carro, sem sinal de celular, a luz de vela e banho de água fria. Assim é o Bonete, feliz na sua simplicidade!” 

Trekking Pedra da Mina ao Capim Amarelo

A travessia da Serra Fina é um clássico do montanhismo brasileiro. Dizem que no sentido contrário, da Fazenda do Pierre a Toca do Lobo, o desafio é maior.

Nesse trecho fomos da Pedra da Mina ( 2.798 m a.n.m. ) ao Capim Amarelo ( 2.491 m a.n.m. ).

”  Magnifico entardecer com vista do Capim Amarelo bem ao centro. “

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No dia seguinte, acordamos logo cedo para ver o nascer do sol com a silhueta do Pico das Agulhas Negras ao fundo.

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” Aproveitamos também para nos aquecer após uma longa e fria noite. “

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A oeste, a sombra da Pedra da Mina destacou ao centro o pico Capim Amarelo, nosso destino naquele dia.

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Como na Serra Fina não tem trégua, o calor e nebulosidade foram constantes durante todo o trajeto.

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” O vento, como sempre, demostrou sua força desenhando ondas de nuvens ao longo da crista da serra. “

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Após duas horas de trekking paramos para coletar água no rio Claro e por volta do meio dia o clima dava sinais que teríamos um pé-d’água ao final da tarde.

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Na descida ao acampamento Maracanã começou a chuviscar e logo chegou uma forte cerração.

” O perrengue se instalou na subida do Capim Amarelo, com vento, frio e chuva. “

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Com gana e a passos lentos chegamos ao cume. Montamos e pulamos rapidamente para dentro das barracas.

Em poucos minutos a chuva cessou, a temperatura aumentou e podemos sair dos abrigos. Apesar do cansaço fomos preparar o jantar.

Para nosso deleite, o pós tempestade deixou a tarde mansa, de ar parado, céu alaranjado e a visão de onde partimos pela manhã…

” Pedra da Mina escondida entre nuvens. “

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