Filho Águia

” Os filhos são como as águias, ensinarás a voar mas não voarão o teu voo. Ensinarás a sonhar, mas não sonharão os teus sonhos. Ensinarás a viver, mas não viverão a tua vida. Mas, em cada voo, em cada sonho e em cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos recebidos. “

Madre Teresa de Calcutá

Parece que foi Ontem

Parece que foi ontem, golpeado duas vezes, no mesmo momento. Quase knockout. Respirei fundo, me levantei. Em recesso, pedalei muito. É verdade que várias vezes sem um destino final, apenas fui em frente.

Parece que foi ontem, revisitei caminhos antes percorridos. Busquei novas direções. No início, entre acertos e desacertos, andei perdido. A cada dia, ecoando novos rumos e destinos. Exploro minha sensatez. Ainda acertando o prumo.

Parece que foi ontem, uso máscara como um desgarrado. Após nove meses, não preciso mais me sufocar com algumas “máscaras”. Enquanto outras percebi que são bem dispensáveis nessa transição planetária. 

Parece que foi ontem, continuar atento a turbulência ao redor. Cuidado! Cuidando dos próximos. Tudo parece desconexo. Por vezes abatido, procuro um novo alento. Continuo a pedalar, buscando novos panoramas.

As Pegadas ao Meu Lado

“As pegadas das pessoas que andaram juntas nunca se apagam.”

Proverbio Africano

“Não ande atrás de mim, talvez eu não possa liderar. Não ande na minha frente, talvez eu não queira segui-lo. Ande ao meu lado, para podermos caminhar juntos.”

Provérbio Ute

Enselvado

Embrenhado na mata. Tudo a flor da pele. Em movimentos compassados, desviando do jângal cortante. Atento aos seres ocultos que rastejam no matagal escuro. Encoberto nas folhagens grossas, busco as frestas de luz. Vem do alto. Tudo verde, tons claro escuro. Natureza viva, esperança. Estimulo reconfortante, na caminhada calma. O verde acalma. Passo-a-passo, corpo e mente ativos, equilíbrio em terreno intocado. Na selva, gotejo. Assombrado em pesar meu estado finito. Seguindo em frente, rasgando a mata, entre espasmos musculares e ardume nos pés. Assolado pela dor. Afora energias boas para depurar os corpos. Sigo a luz na folhagem. Fecho os olhos, me transporto, leve em espírito. Capturo a energia do sol, me aqueço. Nas células da planta vejo espectros de luz, verde ás suas folhas. Como uma simbiose entre seres. Que movimento incrível, volito livremente nas copas mais altas, num revoar controlado. Indo além da mata escura. Driblo a densa folhagem, já me vejo bem acima, agora contemplando a imensidão em tons verdes. No absurdo da minha imaginação, extravagante, acordo descansado, e novamente enselvado.

Artistas da Pré-História Brasileira

Nossos ancestrais nômades caçadores-coletores habitaram selvas verdes da mata atlântica no nordeste brasileiro a mais de 10.000 anos atrás.

Certamente a caça devia ser abundante, tendo em vista as pinturas rupestres encontradas em centenas de sítios na Serra da Capivara, ao sul do estado do Piauí.

As pinturas retratam uma fauna generosa. Os painéis das pinturas nas paredes das tocas representam cenas do cotidiano como a caça, o sexo, o nascimento, a dança e rituais.

Os seres antropomórficos aparecem em cores e feitio diferente. Em algumas figuras vale a imaginação para tentar entender o que é ou o significado da cena.

As imagens são uma amostra do registro feito no Parque Nacional Serra da Capivara nas tocas do Pajaú, do Barro, do Baixão da Vaca, das Eminhas e Veadinhos Azuis, do Deitado, da Gameleira, da Saída, do Paraguaio, do Caldeirão e Baixão das Andorinhas.

Praias do Guaruru

Descemos a serra rumo ao litoral de Bertioga. Estacionamos ao lado do canal e nos aparelhamos para pegar a balsa. Do outro lado, aportamos em terras do Guarujá. 

Não pudemos deixar de apreciar a serra do mar, a grande muralha, entre nuvens. 

Aos pés das suas vertentes inclinadas, admiráveis quedas-d’água brotam das encostas até os cursos d´agua encontrarem os mangues e o Itapanhaú.

No canal de Bertioga, próximo ao Forte São João e São Luiz, as águas se confrontam para organizar restingas e pequenas praias na porção leste de Guarujá.

Neste trecho adentramos nos caminhos da Serra do Guaruru.

A trilha da Praia Branca começa ao lado do posto de pedágio da balsa. Este trecho é pavimentado para facilitar o acesso a comunidade caiçara da prainha Branca.

De pés descalços na areia branca caminhamos em direção a ilhota, que na maré baixa se liga a praia e ao costão rochoso.

Embaixo de um chapéu de sol paramos para apreciar a vista.

Seguindo na trilha da Praia Preta, em mata atlântica bem preservada, o caminho estava enlameado e escorregadio.

Entre subidas e descidas, o lamaceiro foi diversão e atenção.

No final da praia Preta as árvores refrescaram o nosso descanso.

No trecho final da trilha na mata, alcançamos a Praia do Camburi. De imediato avistamos a Ilha do Guará.

Como na praia Preta, a natureza selvagem domina o ambiente, mas nesta havia algumas moradias embrenhadas na mata.

Estas trilhas tem paisagens de tirar o fôlego, mas é preciso esgotar o dia até o entardecer para apreciar esta lindeza toda. 

Teia Cósmica

“Viver cada momento como sagrado, é reconhecer que todas as coisas são interligadas numa grande teia cósmica. O aprendizado é viver completamente agora mesmo: carpe diem. O aqui e agora é o ponto no qual o poder existe; é o único ponto do qual se pode fazer escolhas e mudar seu mundo.”

Swami Paatra Shankara

Sexta-feira numa Comunidade Caiçara

Após aportar em águas tranquilas, a tarde trouxe vento terral e baixa-mar. 

Era tarde de sexta-feira na comunidade do Cruzeiro. Simplesmente fiquei paralisado com os tons azulados da vista do Saco do Mamanguá. Entre nuvens, o sol encobria o que estava por vir, o pôr do sol.

Como se o ventilador fosse desligado, o vento acabou. O calor já não era escaldante. Então chegara o momento de caminhar na areia molhada da praia do Cruzeiro e acompanhar como verdadeiramente tranquilo é uma sexta-feira nestas bandas.

Indolente era meu caminhar.

Assim chegou à tardinha, ainda de céu azul-alaranjado. As águas do mar recuaram, as marolas sumiram e a comunidade simplesmente curtia aquele pôr do sol. Os juvenis brincavam na lagoa salgada. Algumas poucas crianças se lambuzavam na lama de areia, olhando para eu como um ser de outro mundo. Alguns jovens e adultos ficaram à espreita para ver o entardecer.

O império da natureza, como sempre, trouxe mais um magnifico pôr do sol.

Um menino brincava com seu cachorro sem perceber o espetáculo a tempo, enquanto que outro parecia anestesiado com aquelas cores, do azul-alaranjado, claro, escuro e prateado se misturando nas águas e céu do Mamanguá.

Do outro lado, a lua no quarto crescente disputando atenção com o Pico do Pão de Açúcar. No relógio, nem dezenove horas ainda eram…. Assim é a sexta-feira na comunidade do Cruzeiro.

A Grande Mãe

A grande mãe se debruçou….

Há séculos em ascensão aos céus, símbolo magno da vida, por vez sequiosa por águas turbulentas, se aproximou do abismo das margens úmidas.

A grande árvore se ramificou em galhos fortes na busca do sol vivo. Apesar da superioridade alcançada, se viu pendida sobre o rio Grande. Agora penetra as rochas e foge das corredeiras. Ela bebe das águas suculentas do conhecimento proibido. Ainda perene, segue corpulenta.

Agora em tempos de tempestades tardias, da primavera derradeira, as águas turbulentas buscam novos caminhos para transpor a grande mãe. Os espíritos da floresta espreitam felizes a brincadeira das águas.

Então fui descansar em seus braços, debaixo do tronco maior, ao lado das corredeiras mansas. Apenas fluido, fluindo nas corredeiras, feliz… A grande mãe me acolheu em seus braços.

A grande mãe, pura regeneração. Sem medo, ainda se avolumando com ímpeto, galhos vertendo verticalmente, incontáveis folhas morrendo e renascendo a todo instante, cíclico, fértil. Grande árvore da fonte da vida.

De raízes imensas, embrenhadas nas profundezas escuras do subterrâneo da terra. Aquele tronco descomunal, vertido na superfície, os galhos buscam forças para alcançar novamente a luz do céu. Até quando a grande mãe vai resistir à tentação das águas descomunais que chegam na próxima estação?

Logo, do tronco ceifado e inerte da grande mãe, a vida regenera num minúsculo broto verde. A morte e vida se estorvam…. É o ciclo que se renova!

Eita Bicho Estranho…

… Esse tal de cavalo selvagem. Parece bicho homem, sensível e bárbaro. Muitas vezes de emoções fronteiriças, da cólera indomável ao amor sagaz. Impetuoso, corre livre até ser arrebatado pelo cansaço. Aparentemente esgotado é sem dúvida um corredor nato. Corre rápido e mais rápido, para ganhar de si mesmo. Ainda aprendendo a controlar as forças que tem. No tempo da teimosia vem a sensatez a galope. Percebe que a liberdade é efêmera. Assim, atado àquela grande árvore do mundo…. Parada obrigatória para refletir sobre as transgressões, nem de todo mal são vezes contraditórias, algumas fortuitas e poucas irrefreáveis. Uma luta constante para cavalgar na orbe do bem. Ao trotar busca o comedimento entre a alegria e a tristeza. Ainda preso na grande árvore tenta confessar porque tem que levar aquele fardo. Pra falar a verdade, sente como é bom aquela sombra, o alimento da relva e os frutos que despencam do alto da folhagem da grande árvore. Que estranho aquela energia em tudo ajuntado. Afinal, dos sonhos a galope ecoa o magnetismo e fica fácil zurrar de si mesmo. Eita bicho estranho esse tal de…